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    February 22

    Ter ou não ter um namorado

     

    TER OU NÃO TER NAMORADO

    (Carlos Drummond de Andrade)

     

    Quem não tem namorado é alguém que tirou férias de si mesmo.
    Namorado é a mais difícil das conquistas.
    Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
    Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, de lágrima, nuvem,
    quindim, brisa ou filosofia.

    Paquera, gabiriu, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil.
    Mas namorado mesmo, é muito difícil.

    Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.

    A proteção não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira;
    basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição.

    Quem não tem namorado não é quem não tem amor:
    é quem não sabe o gosto de namorar.

    Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, e dois amantes,
    mesmo assim não pode ter namorado.

    Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.

    Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de
    virar sorvete ou largatixa e quem ama sem alegria.

    Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.

    Namorar é fazer pactos de amor com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível
    de durar.

    Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas;
    de carinho escondido na hora em que passa o filme;
    de flor catada no muro e entregue de repente,
    de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
    de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de
    viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete
    mágico ou foguete interplanetário.
     
    Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor,
    nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele,
    abobalhados de
    alegria pela lucidez do amor.

    Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

    Não tem namorado quem não tem
    música secreta com ele,
    quem não dedica livros, quem não recorta artigos,
    quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado.

    Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
    Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana,
    na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.

    Não tem namorado quem ama sem se dedicar;
    quem namora sem brincar;
    quem vive cheio de obrigações;
    quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

    Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
    Não tem namorado quem não fala sozinho,
    não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

    Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilo e medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.

    Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.
    De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.

    Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.

    Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada.

    Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galantearia.

    Se você não tem namorado porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho
    sem curtir; quem curte sem aprofundar.

    Se você não tem namorado porque ainda não enlouqueceu aquele
    pouquinho necessário a fazer a vida passar e de repente parecer que tudo faz sentido:
    Enlou-creça

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